Estava tudo preparado para aquele final de semana. Clóvis arrumara todas as coisas no carro com a ajuda de Tobias, Frango de Dentadura e Clovegildo. Helena fizera as malas e já havia colocado tudo em seu devido lugar dentro do veículo para a viagem que se iniciaria nos próximos minutos.
— Eu ODEIO viagens! — disse Clóvis.
— Mas amor, estamos numa viagem em família. — comentou Helena.
— Eu ODEIO VIAGENS EM FAMÍLIA! — finalizou Clóvis, com seu habitual mau humor.
Eram seis da manhã de um sábado perdido na cidadezinha de Vale Azul e a família iria passar o final de semana no Sítio Vaca Leiteira, de propriedade do Tio Euzébio, irmão mais velho de Clóvis. Seriam três horas de viagem de Vale Azul até lá.
Tudo pronto para sair da garagem. Clóvis sentou-se no banco do motorista, olhou para o volante, ligou o carro e saiu pela Avenida Arte Cartum em direção à estrada que leva à área rural do estado. No meio do caminho, Clovegildo observava as casas e árvores na beira da estrada:
— Olha só, mãe! As árvores estão correndo! E como têm pressa!
— É mesmo! — concordaram Tobias e o Frango de Dentadura.
Helena riu por alguns segundos, depois informou:
— Não, filho. As árvores estão paradas. Quem está se movendo somos nós, dentro do carro.
— Só estamos nos movendo porque você quer. Poderíamos muito bem estar em casa dormindo pelo resto do dia! — disse Clóvis em tom de deboche.
BUM!
Como todo dia na vida desse pai de família, algo tinha que dar errado; e desta vez, um pneu estourou.
— Ô, pombas! Vai lá fora consertar, Frango.
— Mas eu? Eu sou apenas um frango... de dentadura!
Helena concordou com o galeto:
— Ele está certo, querido. Melhor você ir consertar.
Sábado de manhã, mau humor e coisas para consertar. O dia de Clóvis já estava completo antes do meio dia. Se faltava alguma coisa, quando saiu do carro aconteceu:
— Ih, começou a chover, mamãe.
— Seu pai não vai ficar nada feliz com isso, Clovegildo.
De dentro do carro, ouviam-se reclamações e resmungos misturados ao som da água batendo no capô. Era Clóvis enfurecido. Terminado o conserto, voltaram a pegar a estrada.
Mais algumas horas se passaram quando a chuva finalmente parou.
— Clóvis, Que horas são? — perguntou Tobias.
— São nove horas, e neste momento era para eu estar na cama sonhando bonito!
— Amor, calma. Já estamos chegando ao sítio do Euzébio...
Para espanto de todos, o tempo passava e nada de avistarem a entrada do Sítio na beira da estrada. O carro já estava longe de Vale Azul.
— Por que não paramos para pedir informação? — sugeriu Helena.
— Nunca!!! Estão pensando que eu não sei dirigir na estrada? Eu tenho uma idéia melhor. Vou parar naquele posto e pedir informação.
Havia um posto de gasolina na beira da estrada. E como foi grande a surpresa de todos ao perceberem que Clóvis havia guiado pela estrada no sentido contrário!
— Que legal essa viagem ao contrário. — brincou Tobias.
— Viagem nada! DESVIAGEM! — implicou o Frango de Dentadura.
Clovegildo encerrou o papo:
— É verdade! Estamos "desviajando" há mais de quatro horas! — e todos riram, exceto Clóvis.
— Não digam NADA! — gritou o bigodudo. — Vamos voltar pra casa!
Como já haviam perdido toda a manhâ "desviajando", resolveram voltar para Vale Azul. Naquele dia tiveram certeza de uma coisa: nada feito sem boa vontade leva a algum lugar. Não custa nada fazermos as coisas pensando nos amigos e pessoas que amamos, não é mesmo? Será que Clóvis aprendeu a lição? Na verdade ele nunca aceitou o fato de que errou o caminho naquele dia. Segundo Clóvis, a estrada é que estava com a sinalização invertida e por causa disso, deixaram a visita ao sítio para outro dia. Um outro dia que virá em breve, com certeza.