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Os Bandidos
Gabriel Moura
Certa vez, o cachorro Tobias acordou bem tarde e foi assistir à TV. Passava alguma propaganda de dentaduras, quando, de repente, a imagem se apagou. Era por volta de 4 horas da tarde, e ele foi até o quarto de Clóvis - seu dono - para pedir ajuda. Bateu à porta: "Toc - toc!".

— Clóvis, você está aí?

Ficou sem resposta. Nem precisou forçar a porta, que se abriu após um giro na maçaneta. Tobias olhou por todos os cantos, mas nada de encontrar Clóvis. Foi até o banheiro do quarto e viu que a pia pingava de segundo em segundo. Aquele silêncio já incomodava o cãozinho.

— Será que não tem ninguém em casa? — pensou.

Correu até o quarto do menino Clovegildo. Viu alguns dos brinquedos dele espalhados, figurinhas por todo lado, mas não viu o garoto. Justo agora que ia começar mais um episódio inédito do seriado do Capitão Ianque na TV? Não pode ser!

Mexeu na televisão, deu a volta, rodopiou e pensou:

— Acho que a televisão está com vergonha de mim hoje. Só pode ser!

Tobias desistiu de assistir ao seriado do Capitão Ianque. Será que faltou luz no bairro inteiro? E onde estariam os demais moradores da casa? O cachorro já estava ficando com medo de tanto silêncio. Precisava ouvir alguma coisa, mas era domingo e a Avenida Arte Cartum estava sem movimento algum. Foi quando ouviu a porta da sala abrir ao som de vozes bem baixas, sussurros. "Seriam ladrões?", pensou muito assustado.

— O que vou fazer? Não posso reagir, sou apenas um cachorro e estou sozinho.

Desta vez Tobias ouvia passos, que iam se aproximando dele. Os sussurros eram cada vez mais altos. O cão já estava suando frio quando se escondeu atrás da cama de Clovegildo. Estava sozinho em casa e ladrões se aproximavam! Se ficasse escondido, poderia evitar que lhe fizessem mal, mas estaria deixando a casa desprotegida.

Os passos estavam cada vez mais próximos. Já haviam subido as escadas. Eram várias vozes sussurrando ao mesmo tempo. Mas Tobias tomou uma decisão:

— Seja o que Deus quiser! Se esses bandidos entrarem aqui, vou atacá-los, como todo bom cão de guarda! — Tobias esquecera de que é apenas um cãozinho da raça Beagle, mas nada mais importava, pois a proteção do seu lar estava em suas mãos.

Ouviu a maçaneta da porta do quarto girar e preparou para dar o bote. De olhos fechados, pulou. Tobias sentiu que derrubou alguém, e sentiu algo gelado e caindo sobre ele. Estava com tanta raiva e medo, que nem abria os olhos, apenas dava bofetões e cabeçadas sem parar.

Nesse momento, uma pessoa acendeu a luz. Tobias estava em cima de Clóvis, agora no chão, todo lambuzado de glacê. À sua volta estavam Clovegildo, Frango de Dentadura, Helena, Dona Socorro e Seu Gilberto.

— Feliz aniversário, Tobias! — disseram todos, exceto Clóvis, ainda sob o cãozinho.

— Ãh? Hoje... hoje é meu aniversário! Mas... Obrigado!!!

Que vergonha! Todos haviam preparado uma grande supresa para ele, com direito a bolo e brigadeiros. Sim, Tobias havia derrubado o bolo todo em cima de Clóvis, que já estava totalmente irritado:

— Pombas, gaviões, andorinhas e pardais!!! Tobias, hoje é seu aniversário, mas não vai escapar de umas boas chineladas!!!

O cachorro correu o quanto pôde, e o resto do pessoal riu daquilo tudo. Clovegildo e Helena tentaram ajudar, pedindo para Clóvis se acalmar, mas não adiantou muito.

Naquele dia, apesar do susto e das chineladas, Tobias se sentiu o cachorro mais paparicado do mundo, e, quando se lembra hoje em dia, ainda com dor no bumbum, promete que nunca mais vai reagir a um "assalto".
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